terça-feira, 13 de fevereiro de 2007

Um Conto Feito à Oito Mãos


Autores: Afonso de Lizarra, Alessandra Bertazzo, Eduardo Borges e Me Morte.
O Gato Persa

Meu irmão tem o coração grande, mas muito pouco tato. Cismou de implicar com meu gato persa. Coisa de veado, disse. Se eu não me livrasse daquele gato persa, nunca mais arrumaria outra namorada. Todo mundo na vizinhança falava de mim, eu um sujeito de trinta anos que nunca levava nenhuma mulher para casa e que passeava no fim da tarde com um gato persa no colo. Meu gato era tão branquinho, educado, sim senhor. Nunca me deu trabalho com o uso da caixa de areia. Comia sempre às horas marcadas. Não era desses gatos que roubam ração. Manhoso, grandes olhos azuis, vivia ronronando pelos cantos, implorando por um afago. É bem verdade que, vez ou outra, tomava ares de menoscabo, e ficava com olhos esnobes de felino nobre. Um obeso e felpudo gato branco.Desde que minha namorada me deixara, e deixara o gato, antes, dela, pois tinham os olhos da mesma cor, e agora tão meu, já que me lembrava tanto a cor dos olhos dela, que eu não saíra mais para paquerar. Estava meio com medo, e tinha até me mudado para vizinhança nova, fugindo da fama de homem abandonado. Agora nas nada escolhidas palavras do meu irmão eu descobria que na nova vizinhança eu tinha fama pior que na antiga. Culpava meu gato.Já era hora de seguir minha vida, bem sabia. Pensei em anunciar no jornal minha condição de solteiro. Talvez fosse a coisa mais racional a se fazer. Sabendo disso meu irmão quase me esmurrou. Disse que eu era um desastre e me levou para um bar de solteiros para paquerar.Não sabia mais como fazer estas coisas, mas sei que se deve na conversa com as mulheres, procurar pontos de empatia. Vi uma morena linda, sentada sozinha. Engoli meu uísque, melhorei a postura, respirei fundo, caminhei decidido, sabendo que meu irmão via tudo à certa distância. Perguntei a ela se a outra cadeira estava vazia. Ela me mandou sentar. Falar de quê? Pânico. Nada me veio à cabeça, a não ser:
_ Eu tenho um gato persa e...
_Um bichano?Jura? Eu tenho uma gata siamesa de três anos que me acompanha em todos os lugares.
_Todos? Onde está ela agora?A moça abriu a bolsa e dois olhos faiscantes me fitaram imediatamente.
_Céus!Você é maluca!Trazer seu bichinho para um lugar desses...
_Ela é virgem e todo cuidado é pouco.Não quero nenhum gato abusado se aproveitando dela na minha ausência.
_Isso me deu uma idéia... por que não cruzamos nossos bichanos?_Ora, deixa disso.Por que eu deixaria seu gato abusar da minha Madona?
_Madona? A puta? Tá aí mais um motivo. Madona não combina com virgem. Tem que mudar o nome da gata.
_Tá maluco cara? Eu a chamo assim desde que nasceu.
_Então...
_Acha que ela gostaria de perder a virgindade?
_Com certeza.Depois de alguma relutância, a moça concordou e combinamos o dia para o fatídico descabaçamento da Madona. Dia 4 de julho. Seria dali a dez dias.
_Não dá para ser antes? Perguntei eu já bastante excitado com a idéia, talvez rendesse para mim também.
_Não. Daqui a dez dias. É o tempo de eu preparar a Madona, levá-la no veterinário para ver se está tudo bem. Quero que seja perfeito para ela. Aproveite esse tempo para aconselhar o seu gato, pois se ele for grosso com a Madona, eu o capo.
-Não se preocupe, ele será um cavalheiro. Mas, será na minha casa ou na sua?
― Tem que criar um clima para a Madona. Tem que ser num lugar aconchegante e discreto. Bem se vê que você não entende de alma feminina. Será num motel. Ah, e você paga a conta.
Dois dias antes do combinado eu não sabia mais o que fazer. De tanto pensar naquela gata, quase comecei a enlouquecer. Levei o felino para passear, dei banho com xampu e ungüento, e quando disse à veterinária sobre o tal desfloramento, ela piscou e falou sorrindo, que havia um jeito de trepar com a dona da gata fogosa. Eu fiquei desconcertado e não dormi mais tranqüilo até saber da veterinária mais detalhes sobre aquilo. Tinha que agir, segundo o plano, com toda e suprema cautela e quando chegássemos ao motel, devia perguntar para ela, a dona da gatinha virgem, que assim como muita gente, bem podíamos começar tomando um banho bem quente. E beber um pouco de vodka enquanto nossos dois felinos miavam e, é claro, tratavam de assuntos mais libertinos.
E pensando nessas coisas lá fui eu para o motel no dia combinado. Estava ansioso. Afinal, não dormi nas duas últimas noites pensando, planejando, matutando um jeito de me dar bem com a dona da siamesa virgem. Vai, que ela também fosse virgem? Seria um verdadeiro “ménage a pour”. Nunca havia passado por uma situação dessas. E não ia ser agora que eu iria desperdiçar. No dia combinado, enquanto seguia de táxi com meu persa a tiracolo pelas ruas do Rio de Janeiro, me pus a repassar mentalmente todos os detalhes do plano que bolei para comer a linda moreninha de olhos verdes, proprietária da siamesa virgem. Combinamos que o encontro seria no motel onde o marido de Suzana Vieira havia promovido um quebra-quebra com uma prostituta, não pelo episódio em si, mas pela promoção do dia, que incluía muitas vantagens adicionais, além do preço convidativo.
Será que ela era virgem mesmo? Seu interesse em ir a um motel com um quase-desconhecido seria puramente para desvirginar a Madona? – fiquei cogitando distraído, torcendo para que a dona da siamesa tivesse as mesmas segundas, terceiras e quartas intenções que eu. Não via a hora daquilo começar e nem acreditava naquela aventura felina em um motel do Rio de Janeiro em plena segunda-feira à tarde. Mas aquilo tudo podia render uma boa trepada. E essa chance, ah, eu não ia deixar passar em branco.
A princípio me senti um pouco encabulado com o olhar interrogativo do motorista do táxi, quando lhe dei o endereço do motel. Provavelmente o homem nunca vira alguém ir ao motel levando um gato e ainda por cima, no sentido real da palavra. Mas isso era problema meu. E ao descer do táxi, senti meu nível de excitação lá nas alturas. Paguei o táxi e coloquei o gato dentro da sacola que levei para escondê-lo. Depois fui até a recepção e me registrei, não sem avisar que estava esperando alguém. Com as chaves na mão fui para o quarto indicado e iniciei os preparativos para o ritual do acasalamento felino. A veterinária me explicou que devia criar um clima para que os bichinhos se sentissem mais à vontade. Considerei até a idéia de levá-la junto, mas ela recusou a oferta. Como Madona não demoraria a chegar, soltei o bichano pelo quarto e me pus a seguir as instruções da veterinária. Coloquei música ambiente relaxante para descontrair os bichinhos, escureci o quarto, pois segundo ela, os felinos não acasalam em ambientes muito iluminados e levei até umas moitas artificiais para que eles não se sentissem tímidos na frente da gente. Enquanto esperava pela “minha” moreninha dos olhos verdes, abri uma garrafa de vodka para relaxar e eis que não conseguia me lembrar se meu gato já tinha feito sexo antes. Gordo e preguiçoso, ele era só pêlo e apetite. Eu não via nele qualidades que inspirassem um grande amante. Mas, afinal, tratava-se de uma gata siamesa, e isso de exótico sempre me excitou. Não menos excitante era a dona da gata Madona, a gata virgem. A morena de olhos verdes esmeralda de tom decidido era muito atraente. Já lá se iam uns bons seis meses que eu não tinha contato íntimo com ninguém. Liguei para a portaria do motel, pois lembrei que para mulher chocolate é afrodisíaco. Mandei trazer uma caixa do mais caro. Seria um rombo no orçamento, mas não combinam economia e romantismo. Repassei a vista no cenário africano que montei para incentivar as fantasias eróticas dos gatos, torcendo para que meu persa se sentisse o mais potente dos leões. Mesmo suando muito, apertei a gravata e fechei o paletó, mas uma boa figura devia incrementar minha chance de desvirginar a morena. A esta altura eu já acreditava de certeza dogmática na virgindade dela.
Sentei junto à janela, olhei no relógio. Faltavam cinco minutos. Acendi um cigarro. Fumei em grandes tragadas. É perdoável a insegurança em quem tem vinte anos, mas não em quem já chegou aos trinta. De repente me veio o pensamento inconveniente e brochante: e se ela não gostasse de fumantes? Abri as janelas e me pus a sacudir uma toalha de banho nervosamente para dissipar a fumaça. A campainha tocou. Joguei a toalha no banheiro e fui abrir a porta. Ela estava linda e com os olhos mais verdes do que nunca, olhando com certa malícia para mim:
_Olá! Desculpe o atraso, o trânsito estava de matar – disse ela entrando com uma sacola, que depositou no sofá.
_É a Madona?
_Sim. Ela está um pouco nervosa.
_Ora, ora... vejamos.
Abri a sacola e chamei a bichana.
_Venha mocinha, o mundo te espera.
A gata saiu e olhou para os lados. Meu bichano, imponente, deu uma cheirada no rabo da felina e foi para cima da cama.
_Gato esperto o seu, mas apressadinho, foi logo para a cama – comentou a bela moreninha.Madona parecia estar ansiosa para iniciar o ato, pois correu a se aninhar nos lençóis de linho branco.
_Miauuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu. – era um gemido longo, profundo e provocante. Madona estava mesmo decidida a perder a virgindade. Mais provocante ainda foi a lambida no bigode do meu persa, que o fez sair em disparada para o meu colo.
_Ei... espere aí. Você não me disse que ele era virgem também.
_Virgem? Não! Jamais! Ele é o dono do pedaço no meu bairro. Já traçou umas dez bichanas.
Para provar o que dizia, levei o gato para perto de Madona. Mas para meu espanto, o desgraçado grudou as unhas em minha camisa como se tivesse pavor da fêmea.
_Seu gato é veado? Porra, meu! Você trouxe um gato veado para deflorar a Madona?
_Nãooooo. Nada disso...
Não sabia onde enfiar minha cara de vergonha. Tentei me explicar:
_Ele deve tá doente... mas veado nunca!
E novamente levei o gato até a cama.
_Miauuuuuuuuuu...
O gato simplesmente amarelou e saltou como um raio pela janela.
_Droga! Minha Madona vai ficar traumatizada. Poxa! Eu até estava sentindo certa química por você, afinal se interessou em tornar a vida da minha gatinha mais feliz... Mas, um gato veado? Essa é demais...
_Química? Você falou em química?
_Sim, mas esqueça. Tenho que pensar na Madona agora. Depois, estou decepcionada com você.
_Não! Não diga isso. Vamos cuidar da Madona. Eu prometo que ela nem vai lembrar do meu gato desgraçado.
_O que pretende fazer? Onde vai arranjar outro gato?
_Tem uma clínica veterinária aqui perto...
_Nada disso.Um estranho... quem pensa que somos? Temos classe, não saímos com um cara e transamos no primeiro encontro. Depois, como garante que ela não vai pegar nenhuma doença?Eu estava num beco sem saída. Não podia perder aquela foda, não agora que ela tinha admitido a tal química...
_Eureca! Tenho uma idéia... Cheguei ao ouvido da moça e sussurrei um plano infalível, que satisfaria a gregos e a troianos.
_Tem certeza? E se não der certo?
_Vai dar, pensamento positivo. Eu garanto!
_Ok. Eu topo.
_Topa?
_Sim, já disse.Topo!
_Sério? E depois...
_Se der certo, amanhã voltamos aqui sem os gatos...
Ela me sorriu maliciosamente. Aquilo me excitou.
_Uau! Vamos começar logo. Apague as luzes...
Estava eufórico. Conseguiria finalmente comer a linda moreninha. _Miau... rom, rom, rom, miauuuuuuuuuuuuuu...Transamos horas a fio. Ela gemia feito uma gata experiente, rodada. Nem parecia virgem! Aquilo me deixou louco. Acho que nunca uma foda foi tão boa. Completamente esgotada, ela caiu para o lado preguiçosamente. A moreninha acendeu a luz:
_Nossa! Como você entende do babado! Nunca vi a Madona com um sorriso tão lindo estampado no rosto.
A gata estava estatelada nos lençóis, completamente imóvel, como se estivesse em transe.
_Deu trabalho. Achei que ela não fosse parar de gozar nunca. Acho que teve orgasmos múltiplos. Meu dedo até criou calo.
_Eu fiquei muito orgulhosa de você. Até me arrepiei. E pensar que você fez isso tudo por mim... Achei lindo!
_Lindo? Sua malandrinha. Eu vi sua empolgação. Até esqueci meus pudores quando você decidiu enfiar seus lindos dedinhos no meu ânus. Olha, você chegou a me esfolar. Mas fiquei firme. Senti até sua saliva, danadinha .Taradinha você, hein, princesa...
_Euuuuuuuuu? Pirou cara?
Entrei em pânico. Estava nu no meio de um quarto de motel, mostrando minha bunda vermelha, arranhada e com o orifício aberto como se tivesse sido deflorado.
No outro lado do quarto, no chão, o gato persa, com um brilho de satisfação nos olhos, como se tivesse acabado de comer um rabo. E como lambia o beiço...
(Preserve os direitos autorais- plágio é crime previsto por lei)

2 comentários:

rebellis disse...

Ficou legal mas também estranho ehehehehhe! Pena que não fui quem escreveu o final: o cara teria se dado bem com a morena.

Fui!

Me Morte disse...

Final feliz é pros cornos, melhor assim, diabólico.