sexta-feira, 6 de julho de 2007

João da Silva em apuros - Final



No dia seguinte vieram os novos chefes e com eles uma penca de funcionários. Era normal, dizia Ana. Eles têm que ter gente de confiança, nós, bem ou mal, fazemos parte da turma antiga.
Os dias se passaram e João já era admirado pela nova chefia. Reconheciam que ele sabia tudo sobre administração.
-João. A partir de hoje você trabalha diretamente comigo. O novo Diretor anunciou. –Será meu assessor para assuntos burocráticos. Vou te dar um aumento.
Mais tarde João descobriu que o aumento era uma espécie de gratificação a parte, fora do salário.
-Ele está me dando 80 horas extras por mês. Isso está errado...
-Ora João. Não pode te dar um cargo comissionado, as ordens são para conter os gastos. Então a única maneira que achou foi te dar em extras.
Mais do que merecido. Disse Ana.
-Você acha?
-Claro que acho. Você trabalha feito um burro. Depois... Deu um sorriso maroto e continuou: Eu também estou ganhando 80 horas extras.
-Você? Por quê?
-Ora. Cada um trabalha da maneira que sabe. O novo Patrão gostou dos meus serviços. João fingiu não perceber o tom irônico da garota encerrou o assunto. Não queria saber de nada. Estava muito feliz com a atual situação, não queria que nada sujasse o clima de honestidade que tinha se instalado desde que o novo Prefeito assumira.
No dia seguinte recebeu a notícia de que ia ganhar uma casa. Meus funcionários têm que morar perto do serviço. Será descontada uma parcela simbólica do seu salário todo mês. Quando se aposentar já terá quitato a dívida.
No final do mês quando viu a parcela ficou boquiaberto:
-R$ 10,00! Dez reais não pagam nem o papel usado para redigir a escritura.
-Ora querido. E você reclama? A sorte bateu em nossa porta, sorria.
Sua esposa até remoçara. Novos vestidos. Dizia que agora tinha que se vestir com cuidado, afinal era mulher do assessor do novo Diretor Administrativo. Vendo a esposa tão feliz não disse mais nada. Talvez fosse muito radical em suas convicções.
Três meses se passaram e novo concurso aconteceu.
-Atenção pessoal. Esse é José Pereira. O nosso novo escriturário. Ele vai nos ajudar com o serviço. O diretor apresentou o novo funcionário aos colegas.
-Como vai José? Disse João.
-Vou bem. Muito feliz com essa chance. Meu sonho era entrar para o serviço público.
-Venha até minha sala, por favor. O Diretor apontou para seu gabinete.
-No começo o trabalho é duro. O salário não é grande coisa. Fazem-se muitas horas extras e nenhum adicional, estamos em contenção de despesas. Vai ter que vestir a camisa. Está disposto? Disse o Diretor.
-Claro senhor. Preciso muito desse emprego.
-Bom. Temos uma norma. Se segui-la será muito bem sucedido em sua carreira no serviço público: - De hoje em diante você não ouve, não vê e principalmente, não fala.
-Sim senhor. FIM
.
.
Me


2 comentários:

Ruy disse...

Me, nunca deixei de te admirar ou achar genial. O texto está impecável, embora um tanto inverossímil. Escrito com a maestria de quem tem talento inato.
Fantasias à parte, absolutamente imperdível. Só não pode ser levado ao pé da letra. Ficção é ficção. Das melhores.

Me Morte disse...

Ruy, não se surpreenda se um dia souber que não foi tão fantasia assim,rsss.

Valeu. Beijos